Grupo Universitário de Teatro da Unaerp é o mais antigo mantido por instituição particular no país


Cadeiras em círculo em cima do palco. Os atores, com diferentes idades e histórias de vida, sentem-se à vontade: podem levar garrafinha de água, papéis e o principal, a liberdade para determinar as entonações, os sentimentos, as ações. Após checar mais uma vez o texto, passam as cenas da leitura dramática de “E PUR SI MUOVE!, uma adaptação da obra do dramaturgo alemão Bertolt Brecht, que marca a reestreia do grupo no dia 29 de agosto, às 20h, no Teatro Bassano Vaccarini. 

Sentado na plateia, o diretor cênico Magno Bucci dá instruções aos atores, que acompanham atentamente. “Parou! Está faltando barulhos, risinhos, vozes caricaturadas. Outra vez, por favor”. Após a orientação, os integrantes do Grupo Universitário de Teatro da Unaerp (GUT), mais antigo grupo de teatro universitário em atividade patrocinado por uma instituição particular no Brasil, repetem a interpretação. 

O surgimento do GUT, em 1980, está relacionado à vinda de Bucci à Unaerp, para atuar como docente nos cursos de Comunicação Social e Educação Artística. Na época, era necessário um laboratório e um grupo disposto a experiências não vocacionadas para colocar em prática a teoria abordada em sala de aula. A equipe trabalhava, na maior parte do tempo, com teatro colagem, construindo um ensaio a partir de trechos de várias peças, em formato de prosa, verso e dramaturgia, facilitando o estudo, a apresentação, de fato, e a evolução dos atores. 

Para o diretor cênico, o teatro não tem somente uma função estética, mas social - e às vezes até mesmo terapêutica. Sendo assim, os encontros não enfocam unicamente a técnica. “Priorizamos a criação, eu sinalizo os termos da teoria, sugerindo textos curtos e a prática improvisacional. Tem mais é que colocar para fora, tanto é que aqui a gente não trabalha com certo ou errado, a estética é o último elemento que entra nessa nossa construção”, explica. 


Para o diretor Magno Bucci, o teatro não tem somente uma função estética, mas também social

Extensão à comunidade - Com o tempo, a união ultrapassou os portões da Universidade e estendeu-se à comunidade. Pelo palco já passaram centenas de estudantes, profissionais e cidadãos comuns. Passaram, inclusive, atores que atuam profissionalmente, como Antônio Carlos de Almeida Campos, o Cacalo, que despontou no teatro a partir da vivência no GUT. A paixão pela arte foi tamanha que, após concluir o curso de Jornalismo, em 1990, foi para São Paulo estudar teatro e chegou até mesmo a trabalhar com o diretor Antunes Filho, um dos maiores nomes do teatro nacional. 

“Quando eu estava em São Paulo, minha referência sempre era o Magno, qualquer coisa que eu ia fazer no palco, eu havia aprendido com ele, detalhes de atuação. É muito forte e me alimentou muito. Retornar e fazer esse trabalho de novo com o GUT é uma honra e bastante emocionante”, conta o jornalista e ator. 

Outra história que também esbarra com a trajetória do Grupo Universitário é a da médica psiquiatra Cybele Garcia Leal, de 49 anos. A profissional começou com as aulas de Bucci no campus da USP, onde estudava na época, e chegou à Unaerp anos depois. “O teatro ajudou a me expressar, a controlar minha timidez, saber falar em público, a questão de se colocar no palco. Minha família sempre teve contato com a arte, porque meu pai toca e minha mãe canta, mas o teatro foi fundamental”. 

Reflexão em cena - Referência em Ribeirão Preto, o Grupo é conhecido pelas peças que promovem um debate, intelectual ou imaginário, com o espectador, além de reflexões sobre o momento histórico, a realidade e a condição humana. Entre as adaptações, merecem destaque “Cândido ou O Otimismo”, do escritor e filósofo Voltaire, “A Garota do Gangster”, e todos os escritos do dramaturgo Martins Pena. 

Para Bucci, é tarefa da instituição de ensino superior trabalhar com todas as expressões e conteúdos para o refinamento da natureza humana. “A arte é obrigatória em qualquer processo de crescimento humano e pessoal. Ainda bem que existem instituições particulares com essa mentalidade, visão prospectiva e a manifestação artística na corrente sanguínea”. 


Desde sua criação, o GUT é conhecido pelas peças que promovem debates e reflexões sociais

Reestreia - Com um teor crítico e uma reflexão sobre ciência, a apresentação de restreeia “E PUR SI MUOVE!” será realizada no final do mês, dia 29 de agosto, às 20h, no Teatro Bassano Vaccarini. O personagem central da leitura dramática é o físico, matemático e respeitado astrônomo Galileu Galilei, considerado o “pai da ciência moderna” e os espectadores podem acompanhar um debate sobre a importância da liberdade intelectual e da produção do conhecimento para a qualidade de vida e o pensamento. A entrada é gratuita e aberta ao público. 

O Grupo, que atualmente conta com uma média de 40 participantes, está aberto para receber novos convidados. Há dois núcleos de ensaio, um às terças-feiras, das 19h às 22h, e outro aos sábados, das 9h às 12h. Para mais informações, os interessados devem entrar em contato pelo e-mail gut@unaerp.br

 
Com reflexão sobre a ciência, reestreia do GUT acontecerá dia 29 no Teatro Bassano Vaccarini