Projeto de leitura em penitenciárias da região

O “Clube de Leitura em Estabelecimentos Prisionais” é um projeto de leitura, discussões e elaboração de resenhas de obras literárias realizado em presídios da cidade e região e tem a participação de alunos e professores dos cursos de graduação e pós-graduação em Direito da Unaerp. A iniciativa é da Fundação Manoel Pedro Pimentel (Funap) sob responsabilidade do Governo do Estado de São Paulo, em conjunto com a Secretaria de Administração Penitenciária e o DECRIM-6 do Tribunal de Justiça. A Universidade atua em estabelecimentos prisionais de Ribeirão Preto, Jardinópolis e Serra Azul. Esse projeto de extensão já beneficiou mais de 200 detentos.

A professora Tania Cosci ministra aulas da área de Língua Portuguesa no curso de Direito e em outros cursos da Unaerp e é uma das coordenadoras do projeto. Ela explica que os educandos leem obras literárias, jornalísticas e até mesmo algumas de cunho filosófico. “A ideia é levar para dentro do cárcere materiais que abordem questões e dilemas humanos em profundidade, com uma linguagem mais elaborada e despertar um senso estético, crítico, a sensibilidade, além de promover reflexões acerca da condição humana”. Sobre a experiência Tania narra as conquistas e descobertas dos leitores.

O VENTO SOPRA ONDE QUER (por Tania Cosci)

Desde abril deste ano, tenho estado em contato com uma realidade bem diferente da encontrada aqui fora. Coordeno um projeto de extensão desenvolvido na universidade onde leciono que tem por objetivo o resgate da cidadania da pessoa encarcerada e a consequente remição da pena por meio da leitura de obras literárias. Um grupo de alunos e eu realizamos um debate em cada uma das instituições vinculadas ao projeto, supervisionamos a escrita das resenhas e as corrigimos. Assim falando, parece um trabalho como outro qualquer que demanda apenas organização e disposição. E não deixa de ser, mas é também uma atividade que exige de todos uma compreensão mais humana da sociedade e não no sentido de se explicar o preso como simples resultado (não aceitável, mas perfeitamente previsto) das desigualdades sociais, sabemos que a questão é bem mais complexa, e não pode ser vista de maneira tão superficial, pois, se assim o fosse, não haveria como justificar o criminoso oriundo das altas classes e nem o sujeito que nunca delinquiu vindo das classes mais baixas. De qualquer forma, essas são discussões não cabem aqui, ficam para outro artigo, neste quero relatar algumas das impressões colhidas nessas visitas.

Depois de passarmos pelo detector de metais e pelo scanner, até a sala de aula - sim, lá dentro há escolas - são muitas portas, muitas grades, muitas gaiolas, muitas paredes, imensos corredores. Na primeira visita, a cada vez que uma dessas portas e grades se fechavam havia um sobressalto. Em certo momento, irritada com o barulho natural do ambiente, me esqueci que estava numa sala de aula dentro de um presidio de segurança máxima e quase mandei que fizessem silêncio, não parecia possível estudar em meio a tanto barulho. Depois de algum tempo, as trancas e ferrolhos começam a fazer parte da massa sonora do mundo externo (interno). As conversas prosseguem, os alunos estão de ambos os lados e a postos. Discutem o texto, relacionam-no a suas vidas lá dentro e cá fora. Naquelas três horas juntos, não diferencio mais os meus alunos "daqueles" alunos.

Eles são jovens, a maioria não tem mais de trinta e cinco anos. Têm tatuagens, usam aparelho nos dentes, falam gírias, uns já fizeram faculdade, outros foram alfabetizados dentro do cárcere e nunca tinham lido sequer um poema. Na primeira vez que os vi, li com eles "O caso do vestido" de Drummond, exercício que já repeti dezenas de vezes na universidade e que sempre surpreende. Todos ali viam a mãe, a mulher, o pai, os filhos, a si mesmos. O vestido preso no prego foi assimilado e passou a fazer parte do discurso de alguns. Meses depois, debatendo sobre um outro livro, possivelmente O velho e o mar de Hemingway, um deles, ao explicar o quanto os estereótipos se colam às pessoas ao ponto de anulá-las como sujeitos, diz: "é como o vestido, professora, tá lá no prego e qualquer um que passe por ali sabe o que significa, ninguém esquece!". Uau, eu não pude conter o espanto, a alegria. Alguém até poderia dizer: "está feliz só por causa disso? Grande coisa!". Sim, grande coisa! Aquele homem que vive numa cela com mais quinze, na melhor das hipóteses, compreendeu-se e analisou-se por meio da, e graças à literatura. A história dele vai mudar? Ele vai reincidir? Não se sabe, é provável que sim, todavia, ali naquele instante soprou o vento, ele uma espécie de dente-de-leão foi levado lá para fora dos muros, flanou, mudou vocabulário, postura e modo de pensar.

Foi um átimo, uma fagulha. Sabemos que a leitura por si só não muda uma pessoa, pessoas ajudam outras a mudarem, quando essas assim o desejam. Amanhã vou eu lá conhecer um novo grupo de leitores, não levarei o vestido desta vez, mas o corvo ou talvez uma vela para Dario. Vamos ver, o vento sopra onde quer.

Sobre o projeto Clube de Leitura
A leitura nas penitenciárias consiste na utilização do tempo dos detentos, de maneira agradável, já que muitas vezes realizam atividades escassas e repetitivas durante todo o dia. Como prova disso, há exemplos de muitos que leram seu primeiro livro na prisão ou até foram alfabetizados no sistema carcerário. Segundo a professora Tania Cosci, outro ganho é “criar condições para que o educando encarcerado amplie seu vocabulário e capacidade de comunicação utilizando traços da norma culta, variante da língua, necessária para sua reinserção na sociedade e no mercado de trabalho”.

Durante toda a dinâmica, os detentos participam ativamente de discussões e interagem tranquilamente com os alunos e professores envolvidos. “Essa atividade me proporciona o preparo para as relações interpessoais ativas, o desenvolvimento da oratória e das técnicas avaliativas. “Esse projeto é importante para os alunos, pois permite um conhecimento amplo dos fatores que influenciam na criminalidade”, afirma a estudante Ingrid Pinto.

“Para o detento é uma excelente oportunidade para reflexão, desenvolvimento cultural e incentivo, visando sua recuperação e reinserção na sociedade. Já o aluno tem oportunidade de conhecer um outro lado da sociedade, propiciando a sua familiarização com ambiente carcerário, na perspectiva de melhor compreensão das ciências criminais e processuais penais”, explica o professor Sebastião Sérgio da Silveira, coordenador do curso de graduação e do Programa de Pós-Graduação em Direito da Unaerp.

Grupo de professores, alunos e detentos na Penitenciária Masculina de Ribeirão Preto



Professora Tania Cosci