Um dos destaques da próxima edição da revista científica “Clinical Microbiology and Infection”, importante revista científica da área de Microbiologia Clínica, é um estudo coordenado pelo professor André Pitondo da Silva, pesquisador da Unaerp, que consiste no primeiro relato mundial da bactéria Klebsiella variicola como causadora de infecção endodôntica primária, popularmente conhecida como “infecção do canal do dente”. A prévia do artigo pode ser acessada aqui.
Além do professor, o trabalho teve colaboração das pesquisadoras Profa. Dra. Yara Terezinha Correa Silva Sousa e Dra. Luciana Martins Domingues Macedo, do Programa de Pós-graduação em Odontologia da Unaerp, dos doutorandos Rafael Nakamura-Silva e Mariana Oliveira-Silva, do Programa de Pós-graduação em Tecnologia Ambiental, e da Dra. Louise Cerdeira, pesquisadora da Universidade de Monash (Austrália).
Após um levantamento com aproximadamente 20 pacientes da Clínica de Odontologia da Unaerp, local onde o grupo de pesquisa coordenado por Pitondo realiza vários estudos, envolvendo desde casos clínicos individuais até pesquisas mais abrangentes, os pesquisadores isolaram a bactéria K. variicola, causando infecção endodôntica em um deles. “Além de termos identificado uma espécie inédita nesse tipo de infecção, nós descobrimos que essa bactéria possuía uma característica especial que é chamada de hipermucoviscosidade. As bactérias que têm essa característica crescem no local da infecção com tal viscosidade que torna o tratamento bem mais difícil”, explica o pesquisador.
Ao identificar essa espécie com o fenótipo hipermucóide, o grupo de pesquisa resolveu aprofundar o estudo e firmou uma parceria com pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas da USP de São Paulo e da Universidade de Monash para realizar o sequenciamento do genoma completo da bactéria. “Com o sequenciamento, além de elucidar o genoma da bactéria, descobrimos que ela possui alguns genes de virulência que contribuem para a sua sobrevivência no hospedeiro, dificultando, por consequência, o tratamento. Mas, a vantagem é que a bactéria é totalmente sensível aos antibióticos testados, facilitando a antibioticoterapia. Por outro lado, as bactérias hipermucóides têm uma maior tendência a formar biofilmes bacterianos que dificultam a ação do antibiótico no local da infecção”, diz Pitondo.
Para o pesquisador, a principal aplicação prática dessa descoberta será na área odontológica, pois dentistas passarão a ficar mais atentos a infecções endodônticas persistentes ou com característica de hipermucoviscosidade, que podem agravar a condição e complicar o tratamento. “O conhecimento desse tipo de bactéria nas infecções endodônticas é importante para que pesquisas sejam conduzidas com o objetivo de desenvolver protocolos específicos que tornem o tratamento mais eficiente nesses casos”, afirma.
Segundo Pitondo, a pesquisa levanta dois aspectos importantes para o tratamento endodôntico. O primeiro é que algumas infecções podem ser causadas por bactérias não comumente relatadas nessa área e, muitas vezes, são necessárias técnicas mais específicas para diagnosticá-las. O outro aspecto é clínico, pois bactérias que possuem o fenótipo de hipermucoviscosidade provocam um tipo de infecção considerada mais grave e que pode se disseminar para outras partes do corpo. “O processo de limpeza e desinfecção do canal desses dentes é bem mais difícil, podendo haver eventualmente uma reinfecção, sendo necessário o retratamento. Além disso, nos dentes superiores, essa infecção pode evoluir para casos mais graves, como perda dos dentes, perda óssea e até meningite a partir de uma sinusite, podendo levar o paciente a óbito”.
É o primeiro relato mundial da bactéria Klebsiella variicola como causadora de infecção endodôntica primária
Prof. Dr. André Pitondo da Silva: "Identificamos uma espécie inédita nesse tipo de infecção"






